Crônica Literária

   31.8.02  

O último grande crítico


Creio que não há melhor nome para iniciar este blog do que o de Edmund Wilson. O último dos grandes críticos literários - sem qualquer exagero - conciliou, em sua personalidade, argúcia, inteligência, erudição, lucidez política e excepcional joie de vivre.
Os brasileiros começaram a conhecê-lo na década de 60, no século passado, quando a Lidador publicou Raízes da Criação Literária. Depois, a Cultrix traria O Castelo de Axel. Mas só em 1986, quando a Companhia das Letras inaugurou seu catálogo com Rumo à Estação Finlândia, é que Wilson alcançou, entre nós, a categoria de um best-seller. Alguns outros viriam, todos imperdíveis, até este último, Memórias do Condado de Hecate, recentemente publicado pela Cia. das Letras, no qual seus leitores poderão descobrir o quão excelente ficcionista ele foi.
Contudo, além de toda a vasta produção crítica e ficcional desse instigante norte-americano, ainda faltam ser publicados entre nós os cinco volumes do seu diário. Cerca de 2.000 páginas, divididas em 41 cadernos, todos escritos à mão. Segundo seu biógrafo, Jeffrey Meyers, "os diários eram o repositório de detalhes minuciosamente observados e material valioso, que geralmente eram utilizados em seus livros de ensaios. Escrevia em seus cadernos para seu prazer pessoal; para examinar seu comportamento e seus pensamentos e, quem sabe, para reviver seus dias de juventude". Deixando ordens expressas em seu testamento, para que absolutamente nada fosse cortado daqueles manuscritos, Wilson conseguiu revelar ao mundo uma personalidade extremamente sensual, além de serem, também segundo Meyers, uma radiografia muito fiel das "mudanças do comportamento social e sexual nos Estados Unidos entre 1920 e 1970".
A vida da "melhor cabeça da América" - Gore Vidal assim o define - teve como centro privilegiado dois atos que se repetiram, sem descanso, até os seus últimos dias: ler e escrever. Em minha particular opinião, não poderia haver escolha melhor ou mais sábia.

Em tempo: para os que se interessarem pela vida de Edmund Wilson, a Record publicou Edmund Wilson - uma biografia, de Jeffrey Meyers.
 


"O homem é uma corda, atada entre o animal e o além-do-homem - uma corda sobre um abismo."

Friedrich Nietzsche -